2008-09-30

O Sr. Domingos


O Sr. Domingos tem 64 anos de idade e foi desde (20 de) Novembro de 2006 o motorista do Centro de Saúde onde trabalho. Foi, porque a partir de amanhã (08/10/01) estará na condição de aposentado. Depois de mais de três dezenas de anos na função pública (começou em 1976, no GAT, Gabinete de Apoio Técnico de Salvaterra de Magos), disporá de mais tempo para o convívio familiar e também para o amanho da terra e o cultivo da horta lá pelos Foros da Charneca (no concelho de Benavente) de onde vinha diariamente para Salvaterra.

Deu-me a notícia enquanto almoçávamos em Santarém, depois de eu ter procedido à entrega no Laboratório de Saúde Pública das amostras que colhera durante a manhã no âmbito dos programas de Vigilância Sanitária das águas para consumo humano e de recreio (leia-se Piscinas). O Sr. Domingos optara por Bacalhau (“Bacalhau à Moleiro”) e eu, menos piscívoro, por “Carne à Portuguesa”. Numa refeição que acompanhámos com vinho tinto, da casa – ainda servido em jarro. Num restaurante a que nos habituámos, pela relação qualidade-preço (no total, menos de € 18,00), e ao qual eu só não atribuo uma nota positiva devido à Muzak e ao ruído ambiente. Quando lhe observei que para a semana voltaríamos à cidade - que durante o próximo fim-de-semana evoca a figura e a obra de Bernardo Santareno –, o Sr. Domingos respondeu-me qualquer coisa como: - “Eu não. Hoje é o meu último dia de trabalho no Centro de Saúde”.

Em jornadas anteriores, a aposentação já fora objecto das nossas conversas. E agora a aposentação aconteceu. Em circunstâncias, curiosas, que marcam o fim de um ciclo. Em Novembro de 2006, a viatura do Centro de Saúde estava imobilizada devido a uma avaria mecânica. E hoje, no regresso ao Centro de Saúde, evocávamos esse incidente quando começámos a ouvir um ruído estranho e, logo a seguir, reparámos que no mostrador da temperatura o ponteiro apontava o nível 100… Precisamente a mesma avaria…

Enquanto esperávamos por um táxi, para regressarmos a Salvaterra de Magos, questionei-o sobre o momento da partida e disse-me que o tempo que trabalhou no Centro de Saúde “foi bom no contacto com as pessoas, todas me trataram bem. Foi maravilhoso!”.

O Sr. Manuel Domingos António afasta-se do Centro de Saúde deixando as chaves da viatura na oficina onde será reparada.

Sem mais.

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Ilustração: Fotografia por Duarte d’Oliveira (2008, Setembro)

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