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2008-11-03

“Mafaldisses”, para reduzir as diferenças



Mafaldisses” é um livro de crónicas. Quando foi editado, há já alguns meses, a autora foi entrevistada pelos jornais e convidada para participar em vários programas de televisão. Depois, o livro foi retirado dos escaparates das livrarias e a autora voltou à rotina do quotidiano.

Um quotidiano no qual se defronta com multiplas barreiras, umas arquitectónicas e outras de natureza cultural. Um quotidiano que é o pretexto para as suas “Crónicas sobre rodas”.

Mafalda Ribeiro, a autora, é uma mulher jovem, tem 25 anos, frequentou jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social e exerce a profissão de Técnica de Comunicação. E, como se observa na badana de “Mafaldisses – Crónicas sobre rodas” (Papiro Editora, 2008, 3ª. Edição), “convive com a Osteogénese Imperfeita e desloca-se em cadeira de rodas”.

A própria Mafalda Ribeiro, na crónica da Semana 17 (o livro está organizado de semana a semana), sob o título de “Cuidado, Frágil”, diz de si, lembrando a doença, que “A minha raridade provoca principalmente fragilidade óssea, o que me obriga a ter cuidado com o meu corpo para não partir constantemente, como se de um cristal frágil se tratasse”.

Fragilidade que não a impede de reivindicar viver como todos os outros cidadãos: - “Ao contrário do que muitos podiam pensar” – afirma na “Semana 3 – Comigo a Noite é uma Criança” – “a minha condição física nunca fez de mim uma menina tímida e recatada. Não sou caseira, assumo”. Mas admite que “No entanto, custa-me sair e não ver cadeiras de rodas nas casas nocturnas”.

Ao longo das 52 Semanas que completam o livro, um ano de crónicas, Mafalda Ribeiro assinala as barreiras culturais – sobretudo os preconceitos, estigmatizantes – e aponta as barreiras arquitectónicas que dificultam se não impedem de todo a autonomia das pessoas com a mobilidade reduzida, temporária ou permanentemente.

A eliminação das barreiras culturais é um problema complexo, porque pressupõe uma cultura integradora, promotora de atitudes diferentes, sem preconceitos em relação às diferenças, que exige a mobilização de todos os cidadãos individual e colectivamente.

Mas a eliminação das barreiras arquitéctónicas também nos compete a nós, profissionais de saúde ambiental: quando emitimos Pareceres Sanitários sobre os projectos que apreciamos, quando participamos em vistorias com outras entidades, e, sobretudo, quando detectamos situações que prejudicam a mobilidade e nos envolvemos na procura de soluções.

Por todas estas razões, “Mafaldisses – Crónicas sobre rodas” é um livro que eu (*) mantenho em cima da minha secretária.

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(*) Tanto quanto sei, o primeiro (e, até agora, o único) TSA que frequentou (há mais de uma dezena de anos) um curso na APD, Associação Portuguesa de Deficientes sobre “Barreiras Arquitectónicas”.

2008-10-14

Sebastião Alba


Há uns anos, pela manhã, em Braga, diz-se que depois de na estação se despedir de um amigo que partia de combóio, foi atropelado na autoestrada que atravessa a cidade como se fosse uma avenida. O corpo caído no asfalto terá obrigado à presença do Delegado de Saúde e do Delegado do Ministério Público, de polícias e de bombeiros e foi, depois, removido para a morgue. Onde somente dois ou três dias mais tarde foi identificado.

Era o Diniz.

O automobilista que o atropelou fugiu e não mais foi encontrado.

Passaram-se precisamente oito anos.

Enquanto beberrico uma aguardente velha, como no tempo em que bebíamos cerveja pelos bares da cidade do Rio dos Bons Sinais, folheio alguns dos apontamentos que me restam – “Os poetas moçambicanos são os mais antologiados do mundo”, disse-me – do projecto que ficou por aí, disperso, em caixas de cartão a que o pó e a humidade generosamente concederam o destino mais certo. Mas reencontrei a fotografia que publico e o poema – que na edição de “O Ritmo do Presságio”, para a colecção “O Som e o Sentido”, da Académica, Lda. (Lourenço Marques, 1974) - o Sebastião Alba dedicou ao Rui Knopfli (página 115, a última):

Como os outros

Como os outros discípulo da noite
frente ao seu quadro negro
que é exterior à música
dispo o reflexo. Sou um
e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.

2008-10-11

Alves Redol – Prémio Literário


Alves Redol andou por alí, pelo concelho de Salvaterra de Magos. E escreveu um livro – a que chamou “ensaio” - que é uma referência também no domínio da etnografia: - “Glória, uma Aldeia do Ribatejo”.

Escritor neo-realista, autor de romances que pretendeu que fossem entendidos sobretudo como documentos vividos de denúncia das condições sociais dos trabalhadores dos campos ribatejanos, Alves Redol, nascido em Vila Franca de Xira, é anualmente homenageado pela pela Câmara Municipal da sua terra natal com um Concurso Literário - nas modalidades de Conto e Romance - cuja edição de 2009 foi agora anunciada.

Porque (como escrevemos anteriormente) “Há mais vida para além da Saúde Ambiental”, divulgamos o Regulamento para que os leitores do JSA possam participar. E lembramos: os trabalhos poderão ser entregues até 30 de Março de 2009
.

2008-08-25

Pel'O Fio do Horizonte


O fio do horizonte será a fronteira espacial para além da qual a terra e o resto do universo prosseguem. “O Fio do Horizonte” foi o título escolhido por Eduardo Prado Coelho para as suas crónicas que diariamente publicou no “Público”, até 07/08/25. Pequenos textos, ora sobre acontecimentos triviais do quotidiano ora para nos sugerir um livro, um filme, uma voz – que eu depois procurava ler, ver e ouvir. Mas também para denunciar com souplesse irregularidades e para enaltecer com entusiasmo pequenas virtudes que tenderiam a ficar esquecidas. Nas últimas semanas, algumas das suas crónicas tiveram como cenário o meio hospitalar aonde a doença o conduzira. Para nos falar das pessoas, doentes e profissionais de saúde, da burocracia e das instalações. No seu modo peculiar de dizer, de escrever.

Faria bem o “Público” em juntar todas aquelas crónicas num livro. Agora que se passa um ano sobre a data em que pelo fio do horizonte o Eduardo Prado Coelho transpôs a fronteira da vida.

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Ilustração: Imagem recolhida em Estudante Digital

2008-08-18

“Venenos de Deus e Remédios do Diabo”


Sidónio Rosa é médico. Num encontro de profissionais de saúde que se realizou em Lisboa conheceu uma jovem moçambicana por quem se enamorou. Depois de responder a uma sua pergunta - “Sou da Guarda” - , a Deolinda susurrara-lhe fatalmente ao ouvido: - “Tu és o meu anjo-da-guarda”. As cartas que trocaram não apaziguaram a paixão. Associou-se a uma ONG (Organização Não Governamental) e ofereceu-se como voluntário para trabalhar em Moçambique. Em Vila Cacimba, à beira do mar fíndico, procurou a mulher que amava e encontrou os seus pais, Bartolomeu Sozinho, um velho que reiventara uma pátria para sobreviver, e Dona Munda, uma mulher ancestral.

Alojou-se numa pensão e em Vila Cacimba apenas conhece a ruela de areia que o conduz ao Posto de Saúde, onde numa “enfermaria improvisada nas traseiras” trata dos “soldados atingidos pela estranha epidemia que os convertera em tresandarilhos”, e à casa dos Sozinhos. Uma casa na “eterna penumbra”.

É neste cenário que se movimentam as figuras que Mia Couto recria no seu universo mitológico para pelos trilhos da alma nos desvendar um povo com quem eu aprendi que a vida não se consome nos gestos do quotidiano. Num romance: - “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”.

Um livro para ler.

E reler. “Como se a viagem de Sidónio Rosa não tivesse partida nem chegada. Talvez por isso, em lugar de acácias e imbondeiros, ele assista ao vagaroso desfilar do casario de Lisboa. Afinal, Sidónio Rosa apenas agora está saindo da sua terra natal”.

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Ilustração: Imagem recolhida em Portal da Literatura .

2008-08-14

“A Um Deus Desconhecido”


Sem quaisquer referências em relação à localização, e ainda bem, para prevenir a acção de eventuais depredadores, disse-nos a C. (leitora do JSA) que esta oliveira é uma árvore milenar. Não é a "Árvore”, de John Steinbeck. É tão-somente uma árvore. Que partilhamos com os demais leitores do JSA. Que se maravilham com as pequenas coisas. Também da Natureza.

2008-07-21

Uma mulher frágil


Admitamos: talvez não seja uma mulher bonita, mas é uma mulher com encanto. Escreve. Escreve romances, livros. Muitos. Mais de uma dezena, desde o final do século passado. Quase todos ou mesmo todos com êxito no volume de vendas. Tem por conseguinte leitores perseverantes. Mas não tem a adesão da crítica literária. Em cerca de uma dezena de anos ainda não li uma única nota analítica favorável ao que a Margarida Rebelo Pinto escreveu. Talvez os críticos não sejam sensíveis ao seu modo de escrever, que classificam de “não literatura”.

Eu confesso que não li nenhum dos seus livros. Mas comprei bastantes (a pedido), para os oferecer à minha filha. Que os lê, com gozo e por vezes os discute comigo. Talvez o público para quem escreve seja a população juvenil. Não sei…

Da Margarida Rebelo Pinto eu lia, há muitos anos - com agrado, anoto -, uma pequena rubrica que mantinha num suplemento semanal do “Diário de Noticias”. Lembro-me do título: - “Pluma Silenciosa”, um título que necessariamente me lembrava um outro, o das crónicas da Clara Ferreira Alves, “Pluma Caprichosa”, na revista do “Expresso” que agora dá pelo nome de “Única”. Provavelmente, eu deixei de ler o “Diário de Noticias” antes da Margarida acabar com a crónica. Discreta, silenciosa. Para optar pelos romances, pela literatura dita "ligt" – expressão que apesar de ser de qualidade duvidosa a autora decidiu agora assumir ao publicar “Português Suave”. Que pelas transcrições que já li nos textos de análise crítica será sobretudo “hard” – embora, como escreve Maria Conceição Caleiro no “Ípsilon” (suplemento do “Público” edição de 08/07/11), não ultrapasse “o grau zero do erotismo”…

A Margarida Rebelo Pinto não será uma mulher bonita. Mas é, sem dúvida, uma mulher com encanto. De aparência frágil mas obstinada: - um dia escreverá um livro que eu lerei. Sem reticências.

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Ilustração: Fotografia recolhida em Margarida Rebelo Pinto.

2008-05-09

Livros


Hoje (08/05/08), a revista Sábado ofereceu aos leitores o romance “Como Água para Chocolate”, de Laura Esquivel. O primeiro de mais um conjunto de livros da Biblioteca Sábado.

O volume foi distribuído gratuitamente. Os próximos serão vendidos por € 1 (um euro), pouco mais do que o preço de um café. São romances cuja qualidade literária é incontestável, de autores reconhecidos, alguns nobelizados.

Na próxima semana, “Pássaros Feridos”, de Colleen McCullough, E nas semanas seguintes, “A Mancha Humana”, de Philip Roth; “Crónica de Uma Morte Anunciada”, de Gabriel García Márquez; “Um Capricho da Natureza”, de Nadine Gordimer

Uma colecção de livros que recomendamos. Aos leitores do JSA.
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Ilustração: Imagem recolhida em FESURV, Universidade de Rio Verde

2008-02-18

Para o futuro, um cenário dantesco


Oportunamente, noticiámos que o Dia Mundial da Saúde será este ano dedicado a uma reflexão sobre a “protecção da saúde contra os efeitos das alterações climáticas”. Alterações que condicionam o comportamento das pessoas e que, no limite, serão, susceptíveis de pôr em causa a sobrevivência da espécie humana.

As catástrofes naturais sucedem-se, os cientistas propõem a adopção de medidas preventivas e/ou mitigadoras que envolvem decisões políticas, controversas, e as populações defrontam-se com fenómenos que agravam as suas condições de vida.

Mark Lynas, “jornalista e activista ambiental que se interessa pelas mudanças climáticas”, chocado com as consequências do Furacão Katrina, que em 2005 (Agosto/Setembro) converteu New Orleans num cenário de tragédia, questionou-se sobre “sobre o que irá acontecer, à medida que o mundo for aquecendo, pouco a pouco?” e, depois de consultar milhares de textos científicos, descobriu que “tinha algo verdadeiramente inédito: um guia, grau a grau, para o futuro do nosso planeta”.

Este guia – “Seis Graus, O Nosso Futuro Num Planeta Em Aquecimento” – foi editado pela Civilização Editora e é uma obra que recomendamos. Porque, em concordância com o autor, também acreditamos que as alterações climáticas são “a tela sobre a qual se pintará a história do século XXI”.

2008-01-25

“Rio de Sombras”

Foi pelo “Jornal do Fundão” (edição de 01/01/17) que nós soubemos da publicação de “Rio de Sombras”, um romance de António Arnaut – um concidadão que, no desempenho do cargo de Ministro dos Assuntos Sociais, no início da década de 80 (1980 – 1990) criou o SNS, Serviço Nacional de Saúde, para que se cumprisse um dos direitos constitucionais: - “Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover”.

Na breve nota – “História como Romance” – de apresentação do livro, Fernando Paulouro Neves, depois de citar Henry Miller – “todo o romance é autobiográfico” – transcreve um fragmento do texto original do qual nós extraímos a última frase: - “Constroem-se auto-estradas e obras faraónicas com o dinheiro da Europa, mas não se cuida, como se devia, da Educação, da Saúde e da Cultura”.

Uma advertência que é uma boa sugestão para lermos “Rio de Sombras”. Um livro, mais um livro cuja leitura recomendamos aos leitores/visitantes do JSA.

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Ilustração: Imagem recolhida em Coimbra Editora.

2008-01-14

Portugal (In)Sustentável


Em o “Pais (In)Sustentável – Ambiente e Qualidade de Vida em Portugal”, Luísa Shmidt – socióloga, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e Coordenadora do sítio ECOLINE, – recolhe os artigos que ao longo de sete anos publicou na(s) revista(s) do Expresso.

Nós lemos esses artigos, nos quais Luísa Schmidt, recorrendo a um crítico semáforo, analisou e avaliou as decisões políticas na área do ambiente e os projectos urbanísticos que transformaram muitas zonas do país em espaços pouco menos que impróprios para se viver. Sob a capa da preservação do Ambiente e da promoção da Qualidade de Vida.

Pais (In)Sustentável – Ambiente e Qualidade de Vida em Portugal”, editado pela Esfera do Caos, é um livro que recomendamos aos leitores do JSA.

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Ilustração: Fotografia recolhida em Mais Ambiente.

2007-08-13

De Torga, "O Último Reduto"


Na passagem do centésimo aniversário do nascimento de Adolfo Correia da Rocha, em Coimbra, sobre o Mondego, perto do Largo da Portagem, foi inaugurado um monumento – um passadiço – evocativo de Torga - Miguel Torga, pseudónimo literário do médico especialista em otorrinolaringologia que a minha mãe consultou, decerto que por indicação do então médico da família (Alfredo dos Santos Júnior, Ministro do Interior em 25 de Abril de 1974), era eu criança. Mas lembro-me de estar no seu consultório, pejado de livros e do que então me pareceram papéis velhos, e de vê-lo de bata branca. Obviamente, só mais tarde é que eu soube que aquele médico era o autor de “Novos Contos da Montanha”, livro que li na adolescência.

Como assinalou António Arnault, ex-Ministro da Saúde, a quem se deve a criação do Serviço Nacional de Saúde, o governo socialista ignorou a comemoração e não participou nas acções promovidas pela Câmara Municipal da cidade banhada pelo rio que a população estudantil há décadas apelidou de “Bazófias”.

Do “Cântico do Homem”, livro que a VISÃO distribuiu com a edição de 07/08/09, pelo preço semelhante ao de um maço de cigarros, transcrevemos - para nesta data partilharmos com os leitores do JSA - os últimos versos do poema “Último Reduto”:

Fonte dum rio que dá volta ao corpo
Da humanidade,
Nunca, em nenhuma idade,
Empobreceu a força do caudal!
Generosa, fecunda e permanente,
A vermelha corrente
Regou sempre a secura do areal
.”


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Ilustração: Fotografia recolhida em
http://www.diariocoimbra.pt/ .

2007-08-08

A importância da “Soma”


No Editorial - "O Nosso admirável Portugal novo" - da edição de ontem (07/08/07), depois de comentar a Resolução do governo aprovada na reunião do Conselho de Ministros de 07/08/02, Resolução que aprova um conjunto de medidas de reforma da formação profissional, José Manuel Fernandes, Director do “Público”, sugere como leitura de verão “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley.

Depois de lermos o Comunicado do Conselho de Ministros, no qual se anuncia a aprovação daquela Resolução, que prevê o estabelecimento do Sistema Nacional de Qualificações e a criação do Quadro Nacional de Qualificações, o Catálogo Nacional de Qualificações e a Caderneta Individual de Competências, nós recomendamos também a leitura dos ensaios que 30 anos depois o próprio Aldous Huxley recolheu em “O Regresso ao Admirável Mundo Novo”.

Duas leituras distintas, com um mesmo objectivo: compreender a sociedade em que vivemos e os riscos a que nos expomos. Ou, se quisermos, por outras palavras, saber da importância da Soma na felicidade dos cidadãos.

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Ilustração: Imagem recolhida em
http://www.cuidardoser.com.br/estrategias-da-manipulacao.htm

Motivo para um “post”


Las Tumbas de Saint-Denis y Outros Relatos”, de Alejandro Dumas, é o primeiro volume (distribuído no Domingo, 07/08/05) da colecção “Relatos Breves” que o El País decidiu oferecer diariamente aos leitores. Já lemos a primeira estória, sombria, fantasmagórica, que recolhe o relato do señor Lenoir, em 1793 "nombrado director del Museo de monumentos franceses".

Assim, em espanhol, à primeira vista não é fácil reconhecer em Alejandro Dumas o autor dos romances “Os Três Mosqueteiros” e “O Conde de Monte Cristo”. Porque, como sabemos, em Portugal a tendência é para não se traduzir o nome dos escritores.

Esta questão, porém, afasta-se do motivo para o post. Que consiste, apenas, na transcrição de uma frase de Alexandre Dumas que recolhemos na página 10 do volume em referência e que - no castelhano de Mauro Armiño, o tradutor - partilhamos com os leitores do JSA: - “El orgullo de quienes no pueden edificar es destruir”.

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Ilustração: Quadro de Ericco recolhido em
http://www.antorcha.net/biblioteca_virtual/filosofia/estupidez/estupidez.html

2007-01-24

“Ventos da minha alma”


Porque todo o tempo é pouco, hoje, enquanto almoçava – no restaurante de (quase) todos os dias, que o Vítor Manteigas já conhece –, folheei um dos livros que andam comigo no carro – “Ventos da minha alma”, um volume que recolhe textos atribuídos a Sebastião Alba.

Comprei o livro na manhã seguinte a ter lido no “Mil Folhas” (suplemento do Público, edição de 07/01/12) a recensão crítica – “Ética, Prática” – assinada por Eduardo Pitta e li-o durante a tarde, em minha casa, enquanto ouvia música, de Bach, de Mozart…

Talvez perceba o título criptográfico do texto do Eduardo Pitta, e, provavelmente pelas mesmas razões, também não gostei do livro.

Basicamente, por duas razões:

Uma: apesar da cumplicidade entre ambos, o Diniz e o Sebastião Alba não eram exactamente a mesma pessoa. O poeta Sebastião Alba não autorizaria a publicação; e o Diniz, tão cioso da família e dos amigos, não permitiria a divulgação dos seus escritos - comentários acidentais ou recados íntimos.

Outra: O volume (editado pela “Quasi”, Novembro de 2006) compreende também um port-folio, por José Delgado Fernandes, preenchido com fotografias do Diniz (Albano Carneiro Gonçalves), na sua fase de sem-abrigo (voluntário?) nas ruas de Braga. Será que os familiares não têm outras fotografias que mostrem o Diniz (ou se quiserem, o poeta Sebastião Alba, enquanto jovem ou adulto – por exemplo de quando publicou “O Ritmo do presságio”, 1974)?

Na contracapa do livro, leio a reprodução de um dos manuscritos, datado de Nazaré, 24/1/91. Passaram-se 17 anos.

Embora não se notasse, hoje almocei com o Diniz - como noutros tempos, na velha cidade do Chuabo -, distantes da sua oração pagã para que “Jesus, nazareno, (…) amigo de pescadores, (…) nestes dias, (...) aplaque os ventos da minha alma”.

2006-02-14

Uma carta para o futuro

Domingo (06/02/12), pelo meio da tarde, em minha casa, em Vale de Flores. Pelas janelas de tardoz, abertas, o sol de Inverno invade-me a casa. Sobre o chilrear dos pássaros oiço a canção “Verdes Anos”, de (e pela guitarra de) Carlos Paredes.

Depois de amanhã, terça-feira, celebra-se o “Dia dos Namorados”. Um bom pretexto para o comércio subverter os afectos. Ou talvez não. Apenas um intervalo na indiferença dos dias. Para que ninguém se esqueça que namorar é preciso.

Dos livros por arrumar que se acumulam em cima do sofá, no escritório, recolho “A Rapariga das Laranjas”, de Jostein Gaarder – um escritor norueguês que, em Portugal, a generalidade dos leitores conhece desde a publicação (também pela Editorial Presença) de “O Mundo de Sofia”. Folheio o livro e reparo que na última página garatujei: “ (…) madrugada de 04/05/07”. E lembro-me de que li o livro de um fôlego. A história é exaltante. Confronta-nos com alguns problemas existenciais mas é, sobretudo, uma história de amor. De Amor.

Que vou reler. E cuja leitura recomendo, não só porque todos os dias são dias para namorar, mas também porque, como nos conta o jovem narrador – Georg Roed, “com quinze anos, ou, mais precisamente, quinze anos e três semanas” – “Para compreender a “Rapariga das Laranjas”, eu tinha de ser crescido. Aquela era uma carta para o futuro”.

2006-01-05

«L’Égalité » socialista

O governo a que preside José Sócrates – que aparentemente (*) não figura no “Café Montalto”, do Manuel da Silva Ramos (edição de “Alma Azul”, Coimbra/Castelo Branco, Maio de 2004), apesar de, decerto, tal como nós mas em tempos diferentes, também ter frequentado o café que animava o Pelourinho da cidade da Covilhã – decidiu e o Sr. Ministro das Finanças anunciou que em 2006, o ano que agora começou, o aumento do vencimento dos funcionários públicos será de 1,5%. Mesmo para um leigo em matéria de finanças, um valor abaixo da taxa de inflação que Teixeira dos Santos justificou afirmando (“Frases”, Expresso, 05/12/30) que “O governo não pode garantir o emprego e ao mesmo tempo a melhoria dos salários reais”.

Esta afirmação fez-nos lembrar a de um autarca, muito citado em meados da década de 80 (do século XX), quando por todo o país se instalavam e/ou ampliavam redes de abastecimento de água e paralelamente se intensificava a Vigilância Sanitária dos Sistemas de Abastecimento – vigilância que, na prática, na generalidade dos concelhos, também correspondia perversamente ao controlo de qualidade –, contestava as reclamações dos consumidores dizendo (citamos de memória): - "Já têm água em casa e agora ainda a querem com qualidade!?... ".

Voltemos ao aumento do vencimento dos funcionários públicos. Sendo inferior à taxa de inflação prejudicará o poder de compra e necessariamente a qualidade de vida de uma elevada percentagem das famílias portuguesas. Todavia, não é esse o principal factor que motiva o nosso comentário. Por razões de ética social, o que contestamos é o facto do aumento apesar de irrisório ser igual para todos os escalões da função pública.

Teixeira dos Santos que, tal como nós já tem cabelos brancos, decerto que se lembra que mesmo no tempo do Sr. Marcelo Caetano o aumento era inversamente proporcional ao valor dos vencimentos. Para se reduzirem as diferenças.

É certo que os tempos são outros. E que os argumentos também. Mas, se neste tempo socialista – não marxista e reivindicativamente laico – a «l’ égalité» se estabelece assim, o que devemos esperar de «la fraternité» e de «la liberté»? .

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(*)
Ainda não concluímos a leitura do livro, um livro mau como documento e pior como texto literário – ou vice-versa –, características que nos exigem um esforço suplementar.

O Manuel da Silva Ramos insiste em escrever, apesar do João Gaspar Simões, na análise crítica de “Os Três Seios de Novélia” que publicou no Suplemento Literário do “Diário de Notícias” (no final dos anos 60), ter assinalado que o autor não seria um escritor…

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Ilustração recolhida em collections.passion.free.fr

2005-12-28

“Bilhete de Identidade” de uma ex-colega

Neste fim-de-semana de Natal lemos o Bilhete de Identidade de Maria Filomena Mónica – editado pela Alétheia, uma editora recentemente criada pela Zita Seabra. Na capa do livro, o rosto melancólico da autora enquanto jovem, aos 21 anos, recortado de uma fotografia de 1964. Um ano de referência.

Da Maria Filomena Mónica (MFM) lemos muito pouco. Lemos sobretudo as crónicas que publicou no Público. De cujo conteúdo não nos lembramos. Mas não esquecemos a rudeza e a insolência, a suprema insolência – quase patológica – com que trata todos quantos os sociólogos remetem para os segmentos sociais menos favorecidos economicamente.

Ao iniciarmos a leitura do Bilhete de Identidade admitimos que as Memórias (de 1943 a 1976) fossem um exercício catártico. A autora afirma que não. E nós concedemos-lhe o benefício da dúvida. Porque logo no primeiro parágrafo da Introdução faculta-nos uma possível chave: – “ (…) a minha mãe iria perder a memória a ponto de deixar de saber quem era ou de me reconhecer. Fiquei de tal forma atónita que não reagi logo. (…) era-me impossível imaginar como iria enfrentar aquela crise”.

Funcionária da DGS

Em certo momento, a MFM escreve: - “A 30 de Janeiro, no dia em que fiz 21 anos, comecei a trabalhar na Direcção-Geral da Saúde”. Estamos em 1964. E ao longo de algumas páginas, poucas, caracteriza causticamente o ambiente de trabalho:

- “Eu sabia que estava ali para ganhar o sustento, pelo que não tinha ilusões, mas a repartição revelou-se mais sórdida do que havia antecipado”.

- “Tudo, naquele departamento, era sinistro. E surrealista. Nunca consegui perceber a função do serviço a que pertencia, imponentemente intitulado “Relações Internacionais” ”.

- “O mundo dos funcionários públicos era peculiar. A começar, havia dois grupos distintos, os médicos e os outros. Os primeiros formavam a elite da repartição, enquanto os segundos, uma mistura de contínuos andrajosos, escriturários de sapatos cambados e “primeiros-oficiais” pretensiosos, constituíam a plebe”.

Na DGS, MFM trabalhou com o Dr. Arnaldo Sampaio, pai de Jorge Sampaio, com quem manteve longas conversas – “Se apenas tivesse contactos com o Dr. Sampaio, tudo seria suportável. O inferno eram os outros…” – e conheceu a D. Rute, que “vestia uma bata preta, de cetim, a qual jamais fora lavada”, uma funcionária que “usava a biblioteca, de que era a única funcionária, como o seu espaço privado. Era lá, num pequeno fogareiro, que cozinhava o almoço, empestando o local com cheiro a lulas guisadas”.

Depois de um imbróglio em que se envolveu com um professor de filosofia, que a reprovara num exame, relatou o caso ao Dr. Sampaio “o qual, como de costume, levou horas a perceber do que se tratava. Quando o conseguiu, autorizou-me a ir à faculdade nos dias necessários, desde que repusesse, ao fim da tarde, as horas que faltara ao serviço”.

Mais tarde, MFM ingressou na Fundação Calouste Gulbenkian. Todavia, a leitura da meia dezena de páginas em que a MFM descreve a sua passagem pela DGS é (sobretudo pelas analogias que permite) entusiasmante. Vale a pena ler.

Vivir para contarla

Tanto quanto o seu Bilhete de Identidade – Memórias de uma vida susceptíveis de ferir a sensibilidade de algumas das pessoas nomeadas, sobretudo da família. Mas Maria Filomena Mónica esclarece: - “Porque foi assim que eu a vi, a vivi e a senti”.

Um pouco à maneira de Gabriel García Márquez que, na abertura de Vivir para contarla (Mandadorí, Barcelona, 2004), escreve: - “La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla”.

2005-08-29

A UTOPIA


Por Duarte d'Oliveira, TSA

Neste fim-de-semana, no sábado, ao fim da tarde, decidi arrumar os livros de uma estante. O pretexto foi a descoberta de uma teia de aranha entre a parede caiada de branco e a prateleira onde arrumo a colecção completa das obras de Dostoievski. Meramente por curiosidade, reparei que a teia envolvia o sétimo volume da colecção, o volume que integra as novelas “O Eterno Marido” e o “Adolescente”.

Depois de juntar todos os livros em cima da secretária, aspirei a parede e as prateleiras e, com o auxílio de um pano que “atrai e retém o pó” (como consta da embalagem, num texto traduzido em quatro línguas), comecei a limpar e a arrumar os livros na estante.

Em certo momento, o livro que tinha nas mãos, de capa verde e com as páginas amarelecidas, despertou-me a atenção. Como sucede frequentemente, quando cedo à tarefa doméstica de limpar o escritório, poisei o pano e sentei-me no chão a folhear o livro.

Antes, porém, acendi um cigarro e bebi um trago de whisky, depois de baloiçar levemente o cálice onde flutuavam duas pedras de gelo.

Tratava-se de “A Utopia ou o Tratado da melhor forma de governo”, de Tomás Moro, traduzido por Berta Mendes, com Prefácio e Notas de Manuel Mendes, editado pela Cosmos, em 1947. Um número duplo, da Biblioteca Cosmos, dirigida pelo Prof. Bento de Jesus Caraça.

Fiz uma pausa para apagar no cinzeiro a ponta do cigarro. Pela porta aberta, vinda da sala, chegava a voz aveludada de Jane Birkin: - “Chiamami Adesso” (de “Rendez-vous").

Acendi outro cigarro.

Há uns anos, numa crónica que publicava semanalmente no "Diário de Notícias", a Clara Pinto Correia escreveu, sem esconder a emoção, que ficara maravilhada ao saber - folheando o livro que requisitara na Biblioteca da Universidade (nos EUA) onde leccionava - que a Ilha da Utopia fora descoberta por um português.

Foi também numa Biblioteca, na Covilhã, ainda na adolescência, que eu li pela primeira vez os livros do discurso de Rafael Hitlodeu, “um estrangeiro, homem já no declinar da vida”. Um navegador português que acompanhou Américo Vespúcio mas não regressou à Europa. A bordo da Castela-Nova, ficou “na margem de um rio, segundo os seus desejos”.


Acerca das Artes e Ofícios

Decorridos mais de 40 anos, é com a mesma emoção que folheio as páginas amarelecidas pelo tempo. Detenho-me no discurso “Acerca das Artes e Ofícios”, que, tal como os outros, decorrem no mesmo banco de jardim da casa de Tomás Moro que recomendara “aos criados que afastassem qualquer importuno”, e leio:

- “(…) na Ilha da Utopia, todos se preocupam, na realidade, com assuntos verdadeiramente úteis. O trabalho material é de curta duração, e, no entanto, esse trabalho produz o abundante e o supérfluo. Quando há excesso de produção, os trabalhos diários são suspensos, e a população fica livre. Á falta de trabalhos ordinários e extraordinários, um decreto autoriza a diminuição da duração do trabalho, porque o governo não procura fatigar os cidadãos com inúteis labores. O fim das instituições sociais na utopia é, antes de mais nada, atender às necessidades do consumo público e individual, depois de deixar a cada um tanto tempo quanto possível para se libertar da servidão do corpo, cultivar livremente o espírito, desenvolver as suas faculdades pelo estudo das ciências e das letras. É neste completo desenvolvimento que eles (os utopianos) baseiam a verdadeira felicidade”.
Conselhos dos reis

Fiz uma segunda pausa para colocar mais duas pedras de gelo no copo e verter mais um pouco de whisky – produzido nas terras altas da Escócia. Quando voltei a pegar no livro, a casa estava iluminada pela voz humanamente divina de Emma Shapplin a cantar “Ira de Dio” (de “The Concert in Caesarea”). E li, a réplica de Rafael Hitlodeu a Tomás Moro sobre a eventualidade de “entrar para o conselho de qualquer grande príncipe” na Inglaterra de Henrique VIII:

- “ No que diz respeito aos Conselhos dos reis, eis pouco mais ou menos como e de que espécie de homens são compostos:

- Uns calam-se por pura inépcia, pois teriam eles próprios grande necessidade de serem aconselhados. Outros, são pessoas capazes e saberiam fazê-lo, mas partilham sempre da opinião do favorito e aplaudem com entusiasmo as mais charras imbecilidades que lhes apraz dizer; estes vis parasitas não têm senão um único fito: ganhar, com uma adulação criminosa e baixa, a protecção do primeiro favorito. Os outros são escravos do seu amor-próprio e não escutam senão a própria opinião, o que não é para admirar, visto que a natureza ensina que cada um acarinha com amor os produtos da sua própria invenção. É deste modo que o corvo sorri á ninhada e o macaco aos filhos”.

Poisei o livro, levantei-me do chão lajeado e, pela porta da cozinha, fui até lá fora. Anoitecia. Ao longe, ouvi o ladrar de um cão. Perto, uma aragem leve sacudia as folhas das árvores.


De retorno a casa, seleccionei alguma música – Mozart (“Pequena Música Nocturna”), Tchaikovski (“Patética”) e Albinoni (“Adágio”) – e decidi que interromperia a leitura do último livro de Gabriel García Márquez, que comprara na terça-feira, para reler “A Utopia o Tratado da melhor forma de governo”. De São Thomas More, “Um Homem para a Eternidade”.

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Ilustração: de Jacque Fresco, recolhida em http://www.worldtrans.org/venus/venusintro.html